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Argentina precisa de política anti-inflacionária permanente

Entrevista - Clarín em portuges 

Nesta entrevista ao Clarín em Português, o ex-presidente do Banco Central da Argentina,Martín Redrado, disse que o governo atual tem usado âncoras temporárias no combate àinflação. Pelo terceiro ano consecutivo, a meta de inflação, fixada pelo BC, não deverá ser cumprida. 

Martin Redrado (Foto David Fernandez)(Foto David Fernandez)

Buenos Aires, 18 de abril de 2018

Economista, Redrado foi presidente do Banco Central da República Argentina (BCRA) durante parte do Kirchnerismo, entre 2004 e 2010. E deixou o governo por discordar do uso de reservas para pagamentos de dívidas. Temia o desarranjo ainda maior da complicada economia argentina, como ocorreu. Hoje a inflação é, sem dúvida, o maior desafio do governo Macri. Setores políticos e do empresariado, além dos consumidores, reclamam dos preços. O que fazer?

A seguir a entrevista com Redrado, que, ao contrário do esperado, elogia a equipe atual do BC argentino.

- As metas de inflação dos dois últimos anos não foram cumpridas. E nos primeiros três meses deste ano, a inflação chegou a quase 7%. Vai ser difícil cumprir a meta de 15% este ano, não?

A inflação deste ano será de 21%.

O Banco Central fixou as metas que não foram cumpridas. Qual o papel do BC argentino hoje?

A equipe do Banco Central que assumiu em 2015 (com Macri) encontrou uma instituição devastada. Tanto do ponto de vista institucional quanto de reservas. Em 2010, defendi que o uso de reservas para o pagamento de dívida seria um erro. E depois acabamos pagando as consequências com falta de dólares e controle cambial e um BC que acabou ficando sem reservas. Para mim, a equipe atual é tecnicamente muito boa e devolveu a institucionalizada do BC e sua independência em termos de financiar o Tesouro.

Mas as metas...

Mas veja, a inflação (anual) foi de 41% em 2016 e de 24% em 2017 e este ano deverá ficar em 21%. É uma queda importante.

Mas o BC fixou metas de inflação que não foram cumpridas.

Para mim, este foi o erro, o de fixar metas inflacionárias que não combinam com a realidade argentina. Temos ainda muitos preços distorcidos. Eu defino esta etapa da economia argentina, como uma economia em transição.

Uma transição...

Uma transição para o equilíbrio no longo prazo. Ainda estamos num processo de ajuste de tarifas dos serviços públicos, de ajuste dos preços relativos. Com isso, foi um erro de diagnóstico achar que com a taxa de juros se geraria uma âncora (para conter) a inflação.

No Brasil, o regime de metas de inflação funciona há anos, mas acompanhado por outras medidas.

Pois é. No Brasil e em outros países da América Latina, o canal pelo qual o BC se comunica através da taxa de juros com a economia real é o crédito. Mas aqui na Argentina o crédito é muito pequeno. Somente 14% do Produto Interno Bruto (PIB). Grande parte da economia argentina é movimentada com dinheiro vivo. Estes 14% representam, em média, um terço dos países da América Latina.

Ou seja, na sua visão o Banco Central estipulou metas de inflação que são difíceis de serem alcançadas?

O Banco Central não se adaptou à realidade argentina. A taxa de juros chegou a quase 40% e isso não conseguiu mudar as expectativas inflacionarias. Ao contrário. O que produziu no ano passado foi um processo de atraso cambial e investidores internacionais investiram nos títulos do BC (as chamadas Lebac) e com o dólar relativamente estagnado conseguiram lucros de 18% a 20% anual em dólares. O governo fez uma correção no fim do ano passado e isto gerou uma desvalorização.

Mas agora se o BC baixar a taxa de juros e o dólar subir, os argentinos vão preferir comprar a moeda americana...

Sim, claro. No ano passado, o valor do dólar estagnado funcionou como um teto para a taxa de inflação, mas isto gerou distorções nos setores produtivos e nas nossas contas externas. Temos hoje um forte déficit comercial e isto não é culpa do Brasil.

Aqui alguns setores têm o hábito de apontar para o Brasil quando o déficit aumenta.

Mas isto ocorre pelas distorções da própria economia argentina. Acho que aqui na Argentina ocorre o que chamo de GPS porque temos que estar recalculando as variáveis econômicas. Este ano, principalmente a partir de maio, os salários e o câmbio serão utilizados como âncora inflacionária. Mas são âncoras temporárias. O governo tem se mantido firme em manter (o ajuste salarial) em 15%, com uma possível revisão no mês de outubro. A Argentina ainda não encontrou uma política anti-inflacionária que seja permanente.

O que falta para isso?

Falta um programa econômico coordenado e convergente entre a política monetária, a política fiscal e a política de ingressos de recursos. Se você quer que a taxa de inflação seja de 15% terá que fazer que o gasto público cresça 15%, que a arrecadação cresça neste sentido, que a emissão monetária cresça neste sentido e que a política dos salários do setor público, assim como os benefícios, como aposentadorias e planos sociais também acompanhem este índice de 15%. Hoje existe um programa que se tenta coordenar, mas não é convergente e sim divergente.

Em números...

Em números, o gasto público dos últimos doze meses, foi de 18,5%, emissão monetária 31%, ajustes salariais ficaram no ano passado um pouco acima de 20% e vamos ver como termina este ano. Quer dizer, cada variável está com um papel diferente.

De forma descoordenada, em sua visão.

Sem dúvida. Para definir melhor ainda, a palavra certa seria ‘dispersão’.

Falta coordenação, falta comunicação entre as partes envolvidas no controle da inflação?

Não, não. No governo existe uma mesa de coordenação. O presidente tem um estilo de liderança de diálogo e tem muita experiência. Ele foi presidente do Boca Juniors e encarou o desafio de ter Maradona na sua equipe. E Maradona e o técnico, que era Biachi, achavam que eram mais importantes que o presidente. Macri disse que não quer um Bianchi (superministro da Economia) na sua equipe, mas sim que trabalhem de maneira coordenada. Hoje essa equipe é coordenada através do Chefia de Gabinete (da Presidência) (com o assessor) Mario Quintana, mas o que não existe é convergência. A equipe busca coordenar, mas como vocês dizem no Brasil ‘não está dando certo’ (risos).

E os investimentos?

Estamos tendo hoje a chegada de investimentos de maneira muito seletiva.

Na sua visão, qual seria o motivo para que isto esteja ocorrendo?

Ainda não existe um horizonte claro. Isso não está ligado somente ao político, mas às variáveis econômicas. Precisamos de caminhos econômicos seguros para que o setor privado saiba como atuar.

No caso dos investimentos falou-se muito que eles esperavam o resultado das eleições legislativas para chegar aqui. Agora, já tem gente falando que esperam o resultado da eleição presidencial.

Acho que a preocupação principal (dos investidores) é saber se o populismo voltará ou não, e nesse caso não só na Argentina. Ou seja, que exista a sensibilidade social, seja qual for o governo, mas não o viés autoritário. E dar segurança em relação às principais variáveis econômicas. Acho que hoje a Argentina tem um horizonte político relativamente despejado.

A oposição ainda não conseguiu apresentar um candidato (único) e nem uma bandeira. Ou seja, apesar do desencanto dos argentinos dos últimos meses, o governo ainda tem espaço político e espaço financeiro e pode baixar o risco país que hoje é um dos maiores da América Latina.

Fuente: Clarin em portugues

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