Argentina terá inflação alta e crescimento desigual, diz Redrado

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Por Marsílea Gombata - Valor Economico Brasil


Com dance music ambiente e a TV ligada nas cotações dos mercados financeiros, Martín Redrado, ex-presidente do Banco Central da República Argentina, recebeu o Valor para um café que se alongou. Na entrevista, o fundador da consultoria Fundación Capital fez um balanço do período em que esteve à frente do BC argentino e disse ver frutos ainda não colhidos pelo governo do atual presidente, Mauricio Macri.

"O governo olhou com muito voluntarismo a questão dos investimentos na Argentina, acreditando que eles viriam quando sinalizasse certa normalidade macroeconômica e vontade de integração com o mundo", disse, sobre uma das principais apostas de Macri para alavancar o prometido crescimento econômico no país. "Mas os investimentos vêm quando há certeza e existe um horizonte."

Redrado acredita que o governo foi "ingênuo" ao pensar que ao resolver a questão cambial e tirar o país do default, uma nova presença internacional tomaria a Argentina. "Até agora foram vistos investimentos financeiros, mas não no setor produtivo", observou.

A grande promessa por trás dos investimentos é o esperado crescimento econômico, que o governo ainda não entregou. O crescimento, por sua vez, está associado à queda de uma inflação ainda resistente. Apesar de o Banco Central argentino ter adotado um regime de metas de inflação, Redrado acredita que a meta deste ano de 17% é "inviável". Uma vez que a economia argentina ainda convive com distorções, como tarifas subsidiadas de gás e eletricidade, a previsão do economista é que a inflação ultrapasse a casa dos 21% neste ano.

A inflação alta tem sido um problema recorrente na Argentina. Quando Redrado era presidente do BC (de 2004 a 2010), a taxa de inflação oficial era de 7,7%, mas consultorias privadas falavam em até 14%. Questionado sobre o que tentou fazer para conter a inflação quando presidia o BC argentino, Redrado pestanejou antes de dizer que a política anti-inflacionária deve ser uma "política de governo".

"Em 2009 pudemos conciliar uma taxa de inflação baixa de 12%. Mas na Argentina o fenômeno inflacionário tem uma base fiscal importante. A política fiscal está no banco do motorista. Se não é acompanhada, a política monetária fica no banco de trás", disse. "Se houvesse melhor acompanhamento da política fiscal, teríamos alcançado melhores resultados no que diz respeito à inflação."

O economista aponta como um erro do governo Macri a escolha de uma estratégia de resolver "passo a passo" os problemas econômicos em vez de atacá-los conjuntamente. A melhor opção, explica, seria um plano de metas trianuais nas áreas fiscal, orçamentária, monetária, salarial, de preços de energia, e integradas com incentivos ao consumo. Até agora, a equipe econômica de Macri priorizou as metas fiscais - com previsão de déficit primário de 4,2% do PIB para este ano, 3,2% para 2018 e 2,2% para 2019.

"Precisamos marcar um caminho para determinar como será o crescimento e o gasto público nos próximos anos. No ano passado, o gasto público primário cresceu mais de 88%, e isso é insustentável", observou. "Falta iluminar o caminho em direção ao futuro. E, enquanto isso não estiver claro, temos uma economia que não permite projetar no longo prazo."

Ele criticou ainda o aparente "foco" do governo Macri nas grandes empresas e ressaltou que sua política econômica deveria priorizar também medidas para a criação de emprego, que beneficiem mais as classes trabalhadoras e pequenas e médias empresas.

Redrado acabou sendo demitido pela presidente Cristina Kirchner em 2010. À época, Cristina reclamou do atraso na decisão de Redrado sobre a cessão de recursos do BC para a criação de um fundo de US$ 6,5 bilhões para pagar dívidas públicas.

"Claramente foi um erro usar o banco central como caixa de financiamento do setor público. Isso levou a uma economia que ficou sem divisas e acabou tensionando as poucas relações econômicas que a Argentina tinha com o mundo", afirmou.

Redrado não poupou críticas ao governo que o tirou da cena política. Para ele, Cristina foi responsável pelo isolamento da Argentina do restante do mundo. "A Argentina foi se isolando primeiro por falta de dólares", disse sobre o aspecto econômico. "Na parte comercial e de política externa, havia uma visão muito segmentada, na qual a Argentina só dialogava com Venezuela e Irã."

O kirchnerismo, segundo ele, pode ser dividido em dois momentos. De 2003 a 2007, anos de acumulação que foram interrompidos pela crise financeira de 2008. E os anos seguintes, onde o imperativo era "gastar tudo até ficar sem nada" para manter algum crescimento da economia.
"Os números dos últimos anos, de 2010 a 2015, mostram: a Argentina ficou sem reservas do banco central. E o país praticamente não teve crescimento. Começamos a ter maior déficit comercial e, com tantas restrições, caíram nossas importações e exportações", lembrou ao acrescentar como ponto problemático a taxa de inflação de 25% anual.

Depois de 2016 se encerrar com contração de 2,5% do PIB, a equipe de Macri promete crescimento de 3,5% neste ano. Mas, após quatro anos de estancamento, Redrado acha difícil a economia deslanchar de forma homogênea. Em vez disso, deve ter um crescimento seletivo, com alguns setores se expandindo até 5%, como o agronegócio, e outros sem crescimento, como as indústrias têxtil e de brinquedos.

"Como é um crescimento setorizado, não é algo que vá gerar um bem-estar disseminado para toda a população", explicou. "Uma coisa é o que dizemos enquanto economistas, outra o que as pessoas sentem no dia a dia. Alguns sentirão esse crescimento em seus salários, mas nem todos conseguirão materializar isso tão cedo."